Por que o capital de giro virou tema estratégico?

A combinação da Selic em dois dígitos, inflação acima do teto da meta e restrição ao crédito colocou a gestão do capital de giro no centro das decisões das médias empresas. Especialistas alertam que o tema precisa sair da rotina de tesouraria e ser tratado como variável estratégica do negócio.

Qual é o custo real do crédito para médias empresas?

Análise exclusiva da consultoria Safegold mostra que as linhas subsidiadas giram em torno de 13% ao ano, enquanto o crédito livre para médias empresas chega a 24%–26% ao ano. Nas operações de antecipação de recebíveis por factoring, securitizadoras e FIDCs, o custo efetivo pode ultrapassar 34% ao ano.

O que acontece quando o prazo de recebimento se alonga?

A Safegold simulou dois cenários para uma empresa com faturamento de R$ 120 milhões anuais, margem EBITDA projetada de 12% (R$ 14,4 milhões) e carregamento financeiro médio de 24% ao ano. Quando o prazo médio de recebimento (DSO) se estende de 45 para 75 dias, mais R$ 10 milhões ficam imobilizados no ativo. O carregamento desse capital adicional consome R$ 2,4 milhões — equivalente a 16,7% de todo o EBITDA anual da empresa.

Qual é o perigo de depender do desconto de duplicatas?

Ezequiel Wilbert, sócio da Safegold, afirma que a empresa que financiar a operação inteira no desconto de duplicatas a 34% ao ano estará, sem perceber, dentro da janela de 18 a 24 meses que antecede uma crise de solvência. Ahmed El Khatib, da FECAP, reforça que o uso contínuo de crédito reduz o fluxo de caixa disponível, aumenta o endividamento e piora indicadores como cobertura de juros, alavancagem e liquidez corrente.

O que as empresas devem fazer?

A recomendação dos especialistas é encurtar o ciclo de conversão de caixa — ou seja, diminuir o tempo em que o dinheiro fica preso em recebíveis ou estoques —, preservando a margem e mantendo o balanço sob controle ao final de cada ciclo operacional.

Pontos-chave:
  • Selic em dois dígitos; inflação acima do teto da meta.
  • Crédito livre para médias empresas: 24%–26% ao ano; antecipação via FIDC/factoring: acima de 34%.
  • Linhas subsidiadas: ~13% ao ano.
  • Esticar o DSO de 45 para 75 dias destrói 16,7% do EBITDA anual.
  • Dependência do desconto a 34% pode levar a crise de solvência em 18–24 meses.
  • Análise: Safegold, com dados publicados com exclusividade no Valor Econômico.